Sagrado Pensamento Profano

"Ela riu enquanto alguém falava sobre inferno e paraíso..."

importante:
Nenhuma criança foi morta e poucos animais foram feridos durante a elaboração desse blog.

Quem?
A Aline, aquela ali ó:


O que me configura sempre é a mesma loucura
Em frente ao espelho um novo jogo de imagens
Já não sei se é oasis ou apenas mais uma miragem
A incerteza sou eu e o impulso, o alimento da minha alma
A inconsequência é meu traço marcante.
Meu caminho é turvo e se não o fosse eu não me seria
Sou infantil por vezes e doente alguns dias
A minha vida, meus amores e meus destinos circulares.
Esta sou eu, a que grita antes da dor
Que ri antes da alegria e que segue sem recuar,
Que rompe os pactos e que ama a liberdade
Mulher de desejos, de anseios obscuros
De egoísmos só meus e hedonísmos particulares
De verdades caladas de amores interrompidos.
De segredos ditos em silêncios, de palavras doces
De sorrisos sinceros e de realidades cortantes.
O que sempre me configura é toda essa loucura.

Leitura Obrigatória:

Mente Atrofiada
Nosso Cantão
Calerdoses
Canis Familiares
Renegado
Tabithices
Senta e Relaxa
Manual do suicídio
Isadevilish
Mas que momento




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Terça-feira, Agosto 26, 2008

Sabe o que é preciso para acabar com uma certeza?
Só um tremorzinho. Apenas isso. Só um tremor e pronto! Tudo volta.Tudo.
Dessa vez o tremor foi a vibração do celular. Uma mensagem. Quando chegou, ela nem acreditou que fosse de quem era. Resolveu ignorar. Fazer-se de impassível.
Ou tentou. Não podia ler.
Ou melhor, só cederia à curiosidade quando aquela sensação ruim que corria pelo seu corpo parasse e ela retornasse à sua racionalidade plena. Vibrou novamente. A vertigem, que já tinha quase desaparecido, veio muito mais intensa. Eram duas mensagens. Foi conferir, afinal, poderia ser de outro remetente. Que nada!
O que ela queria agora? Aflitava mais. A pessoa que lhe mandara as mensagens já não era mais parte da sua vida, já havia escolhido partir dessa pra sabe-se lá qual, se melhor ou pior. O fato é que não fazia mais parte de sua vida. Pensou. Se bem que como sentira a vertigem, seu pesar delatava a si própria. Fingira ter superado. Fingira.
Um simples tremor e pronto! Tudo estava prestes a desabar. As mensagens ainda estavam ali, intactas. Parecia que o celular a olhava com um ar de superioridade, de quem acaba de revelar aos quatro ventos a sua pior fraqueza. Sentiu-se desnuda, desprotegida, exposta. Estava a ponto de chorar e nem sabia por que o faria. Com isso, até se desfez do assunto de cozinha que estava tendo, sobre o almoço de domingo que perdera. Àquela costela recheada! Desligou-se de tal forma que chegou a ser deselegante com quem conversava.
-Aconteceu algo menina? Tá pálida. Quer água?
-Hm?
-Tá tudo bem?
-Ah, sim. Tá tudo bem sim... Desculpe, foi o celular. Minha mãe...
Sentira-se acanhada por mentir, mas não poderia confessar quem era realmente.
-Aconteceu algo? Você tá ausente.
-Não, é só que estou sem crédito. Vou ter que voltar mais cedo pra casa. Mas continue. Não é nada não.
-Ah bom. Fiquei preocupada. Então...
E o assunto continuava. Ela se afundava mais em si. As palavras estavam saindo cansadas e entravam morrendo, querendo não existir nas suas reflexões. A verdade é que nem tava ali mesmo.
Tava tudo pulsando e sacudindo suas bases. Tava com as lágrimas saltando aos olhos, mas precisava conter-se. Tentou se concentrar no assunto, afinal tinha sido ela que havia questionado. E, com esforço, conseguiu manter-se minimamente presente. Jantou, conversou, agradeceu, sorriu e partiu. Tudo isso mecanicamente, como se estivesse num piloto automático.
Não estava nem absorta no momento que vivia, nem nas mensagens que a esperavam. Era quase um ócio existencial. Não. Não era isso. Era na verdade uma concentração profunda em sua decepção. Como conseguira mentir pra si mesma um sentimento que se mostrava tão latente assim? Já deveria estar morto. Manteve como cadáver algo vivo. Era espantoso. Era preciso matá-lo para absorver-se dessa culpa mórbida.
Era isso que queria. As mensagens ficaram em segundo plano, a vertigem passou e o ônibus chegou. Agora estava tratando de matar (desta vez de fato) o sentimento que lhe escapou pela tangente na primeira tentativa. Pegou as moedas e entregou para o cobrador. Pronto. Deixara com o cobrador as moedas e o sentimento. Recebeu troco - mas não o associou ao troco imaterial. Abriu a janela e fez como se jogasse fora algo que extraiu do seio. Cena um tanto quanto patética para quem a assistia naquele instante. Riu-se da situação.
Agora, que já tinha se desfeito de todo o sentimento - como supunha -, poderia voltar-se ao celular. Dessa vez ela o olhava com o ar de superioridade. Conseguira dar a volta por cima e toda a imponência do aparelho havia se dissipado. Ah! Agora sim! Poderia entregar-se a leitura. Veria com graça tudo, qualquer coisa que poderia conter ali. Quantas suposições já havia feito, mesmo que a contra gosto, mesmo que ridiculamente tentando ocultar de si mesma? Iria agora analisar e se fosse o caso até responderia. Afinal, alguém que marca a gente assim, não pode ser relegado. Se fizesse isso estaria cometendo o mesmo erro que condenou. Bem! Chega de divagações. Respirou fundo. Abriu, viu as mensagens. Depois de tanta expectativa! Estava tudo a li – frente a seus olhos. Não podia crer.
As mensagens não continham nada. Esquecera que seu nome começava com a letra A e que volta e meia chegavam mensagens vazias quando as pessoas não bloqueavam o teclado. Só sorriu. Penosa e dolorosamente. Havia se enganado mais uma vez. Quando tudo aquilo iria acabar? Quando?
As lágrimas também vieram em branco.

Resmungos: :: por Line :: 5:27 PM ::

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Garoto, que me tens pedido?
Que indagas quando me miras?
Sei agora, antes não tivesse ido.

Menino põe tua farda,
Finge ser homem!
Deixa que tua alma em mim repouse,
mas sem as lágrimas que me consomem.

Moleque que me tens quisto!
Me vês como veludo que se esconde
Por debaixo do vestido estampado.
Será que me tens somente como isto?

Rapaz percebe logo minha veemência,
Que não sou nem um pouco indefesa
e de nada mais serve minha seda
senão para esconder toda minha violência
Desnuda, casta, recatada e pura.

Se soubesses quanto me tens
Nesse discreto movimento sem saber-se,
Quando me pedes tímido como a criança que já foste
Para violar todas as leis que me encarnam...

Menino, quê me tens pedido?
Com um suspiro sufocante,
Abarca minh'alma nessa ânsia - agora mútua
De não deixar escapar um milímetro de corpo,
Nem se quer um poro de alma.

E por fim me pedes como o garoto que ainda és
que eu também diga o que sinto,
sem temer que eu o mate e sem perceber
Meus lábios como são: as espadas a sangrar-te.

Resmungos: :: por Line :: 7:13 PM ::

Terça-feira, Julho 08, 2008

O Medo sempre caçoou do Eu. Ele dizia “duvido!” e Eu baixava os olhos e coibia. O Medo passou a olhar de pertinho, com um sorrisinho torto no canto da boca. Quanto mais ele se aproximava, mais Eu reprimia. E Medo percebeu que podia comandar Eu.
“Não toque. Não olhe. Não aproxime. Não fale.”
No canto da sala do Ser, acompanhei o crescimento do Medo. Ele era só uma pontinha de nada, virou um Tudo. Já não sabia se devia tratá-lo como Sr. Tudo ou Sr. Medo. E por conselho do Receio – servo do Medo – parei de tratá-lo de qualquer maneira. Eu também. Agora sim: olhos baixos, sem fala, sem ação. Pouco a pouco Eu se transformou na mobília desse cômodo onde o rei era o Tudo que também era o Medo. E Eu?
Eu: Inanimado.
Eu.
Parado.
Eu estanque.
Eu: Impermeável.
Eu hermético.
Eu.
Detento.
Antes Eu era a cadeira que acomodava o seu Ego. E hoje? Agora?
Na sala do Ser: Eu e Medo. Medo era Tudo. E Eu? O que era?
O Eu não percebeu que se Medo era Tudo, o Eu era Medo. O Medo cumpriu seu legado.
O Eu morreu.

Resmungos: :: por Line :: 12:38 AM ::

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Você chega a ser engraçada sabe? Quer que descubram a sua especialidade, deseja que desfaçam esse nó que encobre sua alma e o que você realmente pretende. Fica sempre como uma incógnita, uma interrogação. Mas sabe que talvez eu tenha suposto mais do que você é. É. Talvez você tenha sempre sido apenas isso: uma questão em aberto.
Você é só isso menina? Senão, por que é que se mostra assim? Procura a todo o momento, com um ‘?’ estampado na testa, esse algo incomum no mundo. Mas pára! Presta atenção! Você sequer olha pro mundo, esse de verdade: objetivo e concreto que está à sua volta! Não olhou pro que eu te mostrei e não olha pro que ele quer te mostrar agora. E sinceramente, como você vai encontrar esse incomum se tudo que analisa é sempre a superfície e sequer age como se acreditasse possível a resposta?
Você abstrai demais as coisas. Cria cicatrizes antes mesmo de haver se cortado. Cria situações que nem sequer foram supostas e não fala. E pior que não falar é agir de acordo com sua fantasia e depois? As conseqüências. E mesmo assim não conta, não se abre. Você mente. Como alguém assim pode acreditar em algo transcendente? Como você busca algo maior agindo dessa forma? Menina, é uma pena que você não acredite na mudança.
Sabe isso me dói mais do que você poderia imaginar. Entende por quê? Porque se você acreditasse possível, eu pensaria que você se esforçaria pra ser diferente de agora. Mas como crer nisso se nem você mesma acredita que as pessoas mudam? E então você criança? Aceita o que é ou o que fez como sua verdade pra sempre? As pessoas mudam - quando acreditam na mudança. Mas você não acredita, então não espere que eu acredite na sua mudança. E não espere que essa dor – minha somente e tão forte quanto ainda te gosto – se cale a sua frente.
Ai menina. Esses mimos que o mundo deu a você estragaram muito da sua essência. Pena. Acho até que foi criada pra ser nobre. Mas não assim. Será que você um dia vai se encontrar de verdade? Sem essas suposições e construções divergentes da verdade? Você tem verdade aí dentro? Consegue dormir em paz com toda essa confusão que você criou e partiu sem nem mesmo olhar os estragos? Você volta? Menina me conte um dia, quando você parar de abstrair, o que é que você vê no mundo. O que é que você busca nele. Sem perguntas, por favor. Pare de esperar respostas do mundo enquanto você não tem as suas próprias bases pra responder.
Senão criança, senão eu nem sei. Você será mais uma dessas. Ficará nas sombras desses relacionamentos mundanos, vai se tornar mais uma dessas que quer que o mundo seja diferente com elas, e continuam agindo exatamente igual com os outros. Mais uma que vai se contentar com o pouco que se oferece porque é assim que tudo sempre foi e é assim que tem que ser.
Será que no futuro você vai brindar a tradicionalidade num copo de champanhe com um cara que não saberá quase nada sobre essa sua essência mórbida, mas que vai te aceitar, porque é cômodo que te aceite para também ter aceitação incondicional? Se for assim, vai felicitar a si mesma a paz de um relacionamento estável mediano, igual a todos os outros, projetando nele algo a mais simplesmente por parecer que ele a vê como algo a mais. E também por ele satisfazer todos seus mimos e não questionar seu lado infantil, errôneo. Será menina, que você vai, no mundo, procurando as profundidades apenas nas aparências, encontrar esse servo e contentar-se?
O que será de você menina? O que?

Resmungos: :: por Line :: 11:48 PM ::

Terça-feira, Junho 24, 2008

A caneta, desde sua ponta até a ultima gota de sua tinta, ansiava ser lápis. Atentava com pesar os traços mal feitos que saiam da tinta de seu próprio tubo e pensava que não poderiam nunca ser apagados. Era definitivo. Todas as manchas e erros ficariam ali, como cicatrizes permanentes no papel.
Toda vez que via o lápis ser deixado de lado sentia pesar. Porque o lápis sim dava sensação de segurança a quem o pegava. Seu grafite não deixava as mesmas marcas permanentes no papel. Tudo o que o lápis fazia era passível de erro e perdoável graças à sua amiga borracha - que sempre vinha consertar seus erros.
Aborrecia-lhe pensar que, quando a pegavam pra escrever, nada era criado. Era tudo repetição do que o lápis já havia feito. Ela não era o instrumento da criação, era apenas a confirmação final - tão chata e sem a emoção daquela paixão materializada pelo lápis. Tudo o que fazia nada mais era do que sombra daquele grafite cinza brilhante. Seu azul tosco e fosco precisava conter-se apenas com a repetição diária, a cópia. Quando se via no leito escuro de seu penal, perguntava-se por que era apenas aquele reles tubo de tinta definitivo e tão bruto frente às linhas.
Nem se quer podia escrever que tinha inveja do lápis. Se escrevesse tal confissão, para quem seria? A borracha não iria apagar suas palavras feridas. E aquela cicatriz iria ficar para sempre escancarada nas linhas de um papel qualquer, marcando pra sempre sua dor. Como era incômoda a presença daquele lápis, daquela existência tão menos solitária que a sua.
E não poderia reduzir tudo a apenas isso. Quando de longe observava o lápis, percebia que ele sim tinha uma existência feliz. Sempre acompanhado da borracha e do apontador. E esses dois, que coisa linda! Faziam do lápis a razão de suas existências. Eles criavam pontes inquebráveis. Divertindo-se entre os sentimentos expressos por um inseguro adolescente apaixonado, brincando com as palavras. Ela nunca podia brincar com as palavras. A palavra que escrevia era coisa séria - não podia errar.
O pior dia de sua existência – e que por sinal transformara para sempre sua essência, numa ânsia de não se ser – foi quando, sobre várias divagações belas e nobres sobre o amor, feitas pelo lápis, a fizeram escrever palavras de dor, desilusão e infelicidade. Como poderia viver bem consigo mesma sabendo que todas aquelas palavras ficariam para sempre ali, mostrando toda dor que alguém poderia guardar? Aquela marca forte e impulsiva de tristeza ficaria para sempre estampada nas linhas. E tudo ali era tinta da sua tinta.
Sem contar a vida útil. Quantas pessoas acabam com o lápis? E quantas vezes acabam com a tinta da caneta e ela vai direto pro lixo? Perdeu a conta de quantas amigas canetas já haviam ido para o lixo. A vida da caneta é tão mais curta e com tão pouca emoção. Estava fadigada, começou a jogar mais tinta do que as palavras pediam. Queria mesmo que o tubo se inutilizasse logo, pra acabar de vez com tudo aquilo.
Ficou mais pensativa. Resolveu parar de soltar tinta, queria descansar de sua definitividade. E nesse descanso percebeu que não tinha com quem queixar-se sem deixar marcas. Sentiu-se solitária, cansada e triste. Odiou-se e nisso deixou vazar a tinta por todo penal num ataque de fúria. Sem palavras legíveis ou qualquer coisa que pudesse ser compreendida, balbuciou na dor enquanto sangrava sua tinta.
Quem iria consolá-la? Agora todos estavam manchados de sua essência, todos tinham sua tinta derramada e mesmo assim ninguém poderia compreender sua dor. Seu ultimo suspiro se deu no papel, quando diante de sua tinta apagada, fantasiou ser lápis. Sonhou em espasmos de felicidade na inocência de que a sua falha fosse na verdade o grafite sobre o papel. Acabou sua tinta. Ela nunca mais deixaria marcas definitivas em nada. Estava livre pra sonhar com palavras que não saiam. Durou pouco. Foi pro lixo.

*Texto resposta ao de César (http://recantodasletras.uol.com.br/contos/1030278)

Resmungos: :: por Line :: 3:03 PM ::

Terça-feira, Junho 17, 2008

Encanto.
En-can-to.

Palavra bonita, que o mundo não usa mais. Será que o mundo perdeu o encanto? Será que brincando, esqueceu o encanto em qualquer canto? E quanto de mim esconde o encanto? Ou será que a pergunta seria: quanto se esconde o encanto? Me parece tanto e tanto.
Hoje meu canto só pede que volte o encanto. Que a vida descubra as entrelinhas de si mesma. Mas ainda aqui, sem resposta, vou guiando. Quem sabe o mundo, nos seus devaneios invente novo encanto enquanto eu sigo, tentando curar meu pranto.

Resmungos: :: por Line :: 5:26 AM ::

Terça-feira, Junho 03, 2008

A minha rua.

Sabe, aqueles momentos nostálgicos que você terá daqui alguns anos? Aqueles que você pode premunir de cara? Então. Não, não. Dessa vez não tem nada haver com infância. Até porque a minha aconteceu na rua do lado - mas isso não vem ao caso.
Pois é. Aqui na minha rua aconteceu um fenômeno estranho, assim, desde uns 3 anos passados... Começaram a aparecer cachorros de tudo quanto é lado e não sairam mais daqui. Formou-se uma verdadeira gangue, diga-se de passagem. No início era legal, vir um cachorrinho bonitinho que o vizinho alimentava e que ficava ali sempre amiguinho, depois te reconhecia e até fazia festa. Mas começaram a se multiplicar, vinham uns que não reconheciam, latiam, faziam barulho de madrugada, sujeira, avançavam e acabaram por se achar os donos da rua. Pudera, com aquele tanto de cachorro, acho que nem a carrocinha podia!
Bem, como donos da 'casa', eles tinham que proteger seu território. E vinham fazendo isso. Ai se um estranho passasse sozinho por um pedaço da rua - especificamente a frente das casas que os alimentavam. Saiam latindo, rosnando e avançando até não poder mais. Bem, não era de se esperar que essa situação ficasse pra sempre. Eis então que semana passada um dos membros da gangue dos latidos até derrubou um cara de moto. Pode?
Pois é. Aí que veio aquele alvoroço da vizinhança e antes mesmo que a comunidade local se organizasse pra buscar os culpados, os suspeitos já iam se esquivando. "Que culpa tenho eu que os cachorros tenham sido abandonados?". Os murmúrios e julgamentos sobre a situação vinham de todo o lado.
Antes de continuar, é bom deixar claro que, sei das fofocas porque minha mãe é dona de mercearia - onde todo mundo vai pra saber e espalhar os boatos. Eu ando mais em casa e consequentemente no mercado, o que de certa forma me transforma num vetor de notícias locais. Pronto, esclarecido o fato, voltemos à narrativa.
Aí essa semana veio o senhor que compra em média uns dez reais por dia (!!!!) de salsicha (salsicha mesmo, não vina) pra dar de comer aos cães e no mesmo horário uma mulher que tinha ficado sabendo recentemente do caso e não tinha conhecimento do 'investimento' do senhor nos cães.
- Pois é! Vai dar problema esses cachorros aqui da rua!
- MAS EU NÃO TENHO CULPA!
A mulher, sem entender o porque da exaltação do senhor, tratou de acalmá-lo.
- Mas meu senhor, não estou dizendo que a culpa é sua!
Tarde demais. O senhor, se sentindo ultrajado pela forma como a mulher havia se pronunciado, saiu resmungando aos sete ventos que a culpa não era dele. Ah é, perdoem meu esquecimento! Antes de partir resmungando o senhor pegou do balcão seus dez reais em salsichas. A mulher que continuou na mercearia ficou sem graça, pegou suas compras e saiu olhando pra trás meio envergonhada.
Dois dias depois, como boa dona de mercearia (não, não vou livrar minha mãe da história), minha mãe repassa o caso para uma outra vizinha, que indignada vai conversar com a mulher. Essa vizinha, com perfil de síndica de prédio, vai até as portas dos vizinhos que alimentam os cães e os intima ou a recolhê-los para suas casas, ou a parar de alimentá-los e deixá-los na rua - tratando de avisar que ia chamar a carrocinha. Deu até tempo contado para os vizinhos. Sabe, que essa mulher é baixinha e magrinha, tem cara de velhinha calma. Mas depois disso ela até parece que cresceu, que os seus braços viraram braços de dona de pensão e ela deu uma engordadinha? Pois é.
Passou o tempo que a vizinha deu, os cachorros foram recolhidos pelas casas que os alimentavam, a carrocinha passou e não pegou nenhum dos cães. Nem uma semana depois, estavam todos na rua novamente.

Resmungos: :: por Line :: 3:16 PM ::

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Se você não demorar muito, posso te esperar pela vida inteira.
(Oscar Wilde)


Sinto falta.
Falta de um passado meu que é presente teu (mais que de ninguém). Uma falta sem fim, uma ausência assim, não só do que se foi, mas do que resta e do que sempre vai ser. Aquelas presenças que calavam tudo no mundo porque não havia mais nada de tão profundo e especial que eu cultivava que aquelas presenças. Mais nada. E nada que eu acreditasse mais e que quisesse mais que aqueles momentos. Tão secretos, tão nossos e de mais ninguém.
Mas sabe, ocorre que canso de esperar, de olhar no calendário - é, agora tenho um calendário que risco dia após dia do ano- e ver que esse tempo nunca passa. Sigo perdendo as esperanças numa contagem progressiva e que me é regresso para o próximo ano. Mas no fundo, quando eu olho pras minhas lembranças resta algo bom. Um gosto doce que me faz querer ter tudo aqui ao lado de volta. Talvez você não entenda essa dor porque as coisas que me rodeiam eram as coisas que nos sustentavam. Porque nos dias de sol que abro a janela lembro de ti. A minha janela - a mesma que deteve o pouso de seus braços. E quando acordo, desperta na cama relembro - ela que sustentou seus movimentos, nossos risos e principalmente nossos quereres. Talvez distintos. E me ocorre hoje que meu querer talvez nunca tenha sido compreendido como realmente foi. Ainda me passa que minhas palavras tenham sido subestimadas e o topor de meus afetos não tenha sido compreendido. Aí está. Me ocorre hoje, com pesar que esses dias talvez nunca aconteçam de novo. E pior, que eles nem tenham a mesma mágica, quer dizer, que talvez todo o significado que eu imprimi pra tudo aquilo tenha apenas saído de mim.
Mas sinto falta, um vazio que me consome a alma, um espaço que nunca será destinado a mais ninguém no mundo. Todos os toques, olhares, gestos que não voltam e que não saem de mim. E o calendário, e a cama, e a janela, e o chão, e a nutella, e as músicas e a garrafa de água que curava nossas ressacas. Todos aqui, me olhando com rudes expressões. Só a falta ecoa nessas presenças, só o passado corre em minhas veias. Só o presente que teima em não ser. Só meu pesar que não quer passar.
Sinto falta que não se preenche e nem tem fim.

Resmungos: :: por Line :: 5:16 PM ::

Segunda-feira, Maio 26, 2008

É tudo uma questão de sentido, não sei. O problema é que a tristeza parece que sempre tá na contramão, entende? Não tem dois caminhos. É um só - e por ele felicidade e tristeza ficam brigando porque têm que dividir o mesmo percurso.
A felicidade me vem do nada e é sempre leve, divertida, perspicaz. E eu sei que ela se esvai e se dissipa no momento porque esse é seu dever e principalmente, porque esse é seu sentido de ser. Ela eu entendo bem. Sai sempre daqui de dento pra fora, pro mundo. E sabe que parece que quando ela sai, sai de um fundo radiante e claro que tenho aqui, para minha superfície palpável, para uma dimensão visível, que eu consigo dividir fácil com você . É como um pulo de luz que salta do espírito passando pelo ventre e chega à boca, aos olhos e faz tremer o coração numa palpitação de samba ligeiro.
Aí que tá o ponto. A tristeza tem o mesmo percurso - não dá pra desviar. A tristeza e a felicidade tão ali, uma esperando a outra passar pra ocupar a via. A felicidade assim, sempre rápida - avança o sinal, não se preocupa com radar, passa na maior velocidade, às vezes sem nem nos deixar admirar sua passagem. Eu mesmo, nem sei de que cor é minha felicidade, pode?
A tristeza não. Vai devagar, gorda, com dificuldades pra atravessar os túneis, arrastando suas navalhas contra o meio fio do meu pensamento, cortando o silencio da alma com gritos estrondosos de dor. Ela sim se faz notar: feia, cabisbaixa, sem vontade, ui! Sempre apertada pra caber na rota, sempre tentando se esconder.
Sabe que, é o mesmo trajeto, mas as coisas sempre adquirem um sentido diferente. Acho que essa rota é como uma roupa bordada sabe? Quando a felicidade passa, ela passa pela rota do lado certo - como se desse pra ver os bordados certinho. Mas quando é a tristeza, parece que a rota tá ao contrario - só dá pra ver os pontos do lado de dentro do bordado, tudo feio, cheio de nó. Sem a menor graça.
Ah, por falar nisso, o sentido da tristeza! Pois é, ela é meio rameira e vem assim, do mundo, penetrando raso em mim, como quem não quer nada e vai vagarosamente tomando conta do percurso, lento, entrando aos poucos e profundo, até que de tão fundo vai que rasga meu ser onde não se sabia, arrancando de lá lágrimas cristalizadas, até se perder num beco qualquer. A tristeza não se faz de momento. Se a felicidade se esvai de dentro pra fora, a tristeza vem de fora pra dentro e se condensa em nós. Fica guardada, acumulada, esperando sempre mais - e sempre mais terá.
E se a lei da física diz que dois corpos não podem ao mesmo tempo ocupar o mesmo lugar, deveria a lei da emoção prescrever tal impossibilidade aos sentimentos. Aí quem sabe poderíamos ter uma mão dupla, pavimentada e com todos os direitos transitórios. Eita! Não seria mais fácil?

Resmungos: :: por Line :: 4:44 PM ::

Terça-feira, Maio 13, 2008

-Mas você perdoa assim as coisas, dessa forma tão fácil?
-Tudo e sempre.
[Pisão no pé]
- Ai! Vá a merda. Por que isso?
- Desculpe.
- Tá, tá. Continua...
[Segundo pisão no pé]
- AIIIII! Filho da puta! Vá a merda seu desgraçado!Doeu e não tem graça, ok? Agora pode me responder por que isso?
- Você viu que foi proposital o primeiro e mesmo assim perdoou.
- Sim, e daí?
- Às vezes o perdão vira margem para as pessoas persistirem nos mesmos atos.

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-Tá, a única coisa que eu não entendi é porque você ainda está assim.
-Se você não entende porque ainda estou assim, isso não pode ser a única coisa que você não entende.

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-Já se sentiu incompreendido?
-Não.
-Obrigada pela força.

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- Já se sentiu sozinho?
- Todo mundo se sente.
- Mas como se nunca fosse achar alguém pra te tirar dessa solidão, como se ninguém nunca mais conseguisse te tocar de forma que você pudesse realmente sentir que não está só, entende? Não é só solidão, é uma esperança morta, não sei mais.
- Entendo. Eu também me sinto assim. Na verdade todo mundo se sente assim - mas a maioria das pessoas opta por buscar algo que prove que estão erradas.
- Não é isso ainda.
- Veja tudo como justiça divina.
- Eu não vou discutir minha opinião sobre esse assunto novamente.
- Mas dessa vez é racionalizável. Existe uma lógica em todos se sentirem sós - pelo menos nisso, ninguém está sozinho.

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- Mas é uma opção.
- Tudo sempre é uma opção.
- Se você compreende isso, por que sofre?
- Porque entender as coisas não faz com que elas doam menos.
- Mas é uma opção!
- Sim. E daí?
- Você não faz o mínimo sentido.
- É uma opção me ver dessa forma.

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Resmungos: :: por Line :: 11:22 PM ::

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Angústia

De mil angústias é feito o homem e a Angústia de Kierkegaard é a que me toma. A angústia difere do medo - porque sentimos medo de algo que já é exposto, dado. Você sente medo de um animal selvagem porque sabe dos perigos que envolvem sua natureza. O medo sempre aparece de ameças objetivas, de perigos conhecidos.
A Angústia não - ela aparece como um terror que todos nós guardamos, indubitávelmente, frente ao que é indefinível, desconhecido. E quanto mais livre for o indivíduo, mais angustiado ele será. Isso porque a liberdade trás em seu gume as possibilidades. Seja por termos muitas escolhas ou por elas serem limitadas lá do fundo que não sabíamos vem a angústia nos tomar.
Eis que daí surge em nós a tensão entre a esfera racional e emocional - onde a emoção nos põe num patamar de estresse por pressentir a tomada de decisão e nosso racional - pressionado pelo emocional - que é coagido a escolher e direcionar nosso caminho.
O problema é que não sabemos nunca o que nos aguarda, - aí a angústia - olhar para frente e não ter uma rota delineada e muito menos um ponto de chegada. Em "Risco e incerteza", Kierkegaard diz que cada decisão é um risco, apontando a situação do indivíduo que se encontra num emaranhado de possibilidades e dentro de si guarda apenas a plena condição de incerteza.E mesmo assim - nessa esfera de dúvidas cortantes - o indivíduo se vê coagido a decidir.
Estou assim. Me sentindo sufocada por angústias que me tomam a todo momento. Me sinto esgotada mesmo sabendo que as possibilidades de agora são na verdade apenas o início de uma grande caminhada de mais e mais angústias pela frente. Kierkegaard considerou a angústia como uma doença do espírito, apontando até as mesmo as causas dela - e concebo que a minha causa seja o desespero de mim sobre mim mesma - desejando a todo custo livrar-me de mim - e para o autor essa é a formula de todo o desespero...
Acho que seria mais fácil se eu pudesse não apenas entender o que ele diz, mas aplicar os antídotos necessários à essa doença de espírito - que me parece tão irrevogável à todos nós... E digo mais. Seria mais fácil se esse 'remédio' pudesse ser comprado em drogarias na forma de simpáticas cápsulas coloridas. Será que chegamos lá?
Será? É que às vezes a gente se esgota das nossas intimidades, às vezes ser-se é apenas libertar-se de si, separar o que somos do que éramos à um segundo e do que se perdeu. Às vezes é preciso esquecer, às vezes é preciso desfazer-se do peso das perdas e dos apertos da dor - o problema começa exatamente no ponto onde temos que retomar a vida e perceber que esse esquecer não nos cura de sermos ainda o que fizemos de nós.

E eu ainda não sou o Napoleão da minha vida e ainda mais, não inventaram o Soma do Admirável Mundo Novo pra curar minha ressaca do mundo. Eita.

Resmungos: :: por Line :: 12:43 AM ::

Quinta-feira, Abril 17, 2008

Só porque faz tempo que quero colocar algo dele aqui.

Amor é Síntese

Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor.

Mário Quintana

Resmungos: :: por Line :: 3:49 PM ::

Segunda-feira, Abril 14, 2008

As garotas brilham. É sábado e - como diz a música - todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Elas fogem e buscam. E difícilmente buscam menos que uma possibilidade de amor. Buscam nos olhares, nos gestos e nos copos de bebida algo que lhes preencham bem o que antes foi manchado. Furtivamente se revelam, mostram o vermelho do batom enquanto cobrem de sorrisos as cicatrizes do coração. Me diz, quanta solidão um copo de cerveja pode curar? Me diz?
As garotas camuflam, riem e enchem o peito de momento. Inebriado, agora o mundo é da cor das luzes piscantes. Não, elas não esquecem do ontem. Mas essa lembrança, ali, serve só de impulso. E o impulso de suas almas lhe pedem com todas as energias: "Entregue-se". E de entregar-se à tudo se extasiam. A alma pulsa em sentidos que se desprendem. E assim segue a noite, com ou sem beijos, com ou sem mãos, mas sempre com olhares, intenções, vontades e desejos - e isso é tudo o que se pode ter.
Mas a festa acaba, e daí? Se para entrar temos filas, na saída todas as dores estão aguardando com a energia potencializada, na mesma intensidade da embriaguez. E as meninas, absorvendo-se no enlevo e contemplação interior vão voltando aos poucos à lucidez. E a luz do dia ajuda a perceber a ilusão do ontem, e a dor de cabeça parece sangrar no peito. O auto-engano dos sentidos de que a noite poderia curar tudo vai se desfazendo. Ficam sempre, é claro, as boas lembranças da noite. Mas aqui fora o mundo ainda gira e não é em volta do globo de luz, os sentimentos bailam e não é no rítmo febril da noite, eles ainda estão envoltos nas mesmas pessoas de antes.
Então garota, vai. A noite com as amigas te faz esquecer o que sente? É assim que irá curar as suas feridas? É assim que deixa sua vida pra trás e os sentimentos de quem tanto te quis bem? Boa sorte. Essa não é a garota que eu conheci. Pena - meu peito diz que isso é traição, mas minha mente sabe que hoje não temos mais um elo. E eu ainda sigo.

Resmungos: :: por Line :: 12:22 PM ::

Quinta-feira, Março 13, 2008

É duro acordar e olhar
Olhar em volta e o que eu fiz?
Tudo diferente do que eu quis
E onde estará meu velho sonhar?

Abro os olhos sem despertar
Do ontem que desapareceu.
E hoje me arrasto até a vida
Que não se desfaz.

Onde estão os risos de ontem
Se atrás das lágrimas só mais lágrimas
E dor, e dor, e dor?

É duro acordar e olhar
Olhar em volta e o que eu fiz?
Um amor perdido, uma ilusão forjada,
Uma chinesa criada, uma amizade acabada.

Tudo diferente do que eu quis
E onde fica meu velho sonhar?
Agora em linha reta, só me resta acertar.

E desnuda do mundo
Minha consciência precisa acordar
Responsabilizar-se pelo fim
E crescer, crescer e viver.

E lá do fundo que não sabia
Meu peito quase desfalecido
Grita em ecos mal feitos
De paredes que só caem
Entre poeiras sufocantes e sufocadas

“É tudo fim ou será
Ressaca pesada
Pra crescer e aprender
Que viver é mais que deixar viver?”

Resmungos: :: por Line :: 2:53 PM ::

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Não tenho a melhor memória do mundo, mas, as mesmas coisas acontecem de formas diferentes pras pessoas e não é porque divergem é que mentem. O problema é que dessa vez queria a segunda versão. Ela me faz falta agora, queria ela pra contar tudo, sem precisar encontrá-la, ou tê-la na minha vida novamente. Não quero mais isso pra mim. E dessa vez poucas coisas irei descrever porque muitas não sei como explicar.
Quando ela chegou, não me lembro do cenário, só sei que eu procurava o céu. Sua proximidade me dava uma sensação única e indescritível de uma forma tão envolvente que ninguém mais seria capaz de me desconcertar tanto.
No momento eu estava invadida por um flamar que percorria todo meu corpo em milésimos de segundos numa rota sem fim. Ela foi a única, com aqueles olhos negros de brilho infindável e de profundidade instigante, que conseguiu tocar-me na parte mais inabalável de meu ser. Olhar para ela era olhar pra dentro de mim.
Naquela noite minhas promessas vãs se desmancharam todas em seu colo. Ninguém me entenderia, ninguém seria digno de minhas atenções, ninguém mais me prendia ao mundo. Ninguém. E ela, pairando ao meu lado com seu olhar fixo, deixava-me com a impressão de que o mundo não precisava de mim e que eu não precisava do mundo. Ela refletia minha alma naquele silêncio perturbador.
Tudo que eu poderia ceder a alguém eu cedia a ela, que fazia minha vida ir se afastando cada vez mais, e nos unindo em um só pacote. E por vezes eu perguntava o porquê de ela aparecera naquele momento tão perdido da minha vida. Por que ela aparecera quando eu não queria ninguém e procurava somente meu céu?
Ela sempre fora, e ainda acho que deve ser, alguém de poucas palavras. Ela fora meu maior vício outrora, e apesar de ter me cedido apenas o seu vazio, esse vazio me era acolhedor. Mas quando cansei desse vazio, quando já não me era suficiente, quando as respostas já não me interessavam e havia cansado da sua profundidade infinita e espelhada que era intocável ela me disse:
– Consegui te ensinar enfim. Você pôde escolher entre se entregar à mim e se perder em você mesma ou entender que eu fui necessária, mas que você não poderia me ver como algo mais que um adendo do seu percurso. Agora minha cara, é hora de você seguir, mas deixe de ser boba, você nunca encontrará o céu olhando para o chão.
E antes que eu pudesse entender alguma coisa ela, a Solidão, sumiu. Foi no exato momento em que resolvi permitir que a vida me banhasse novamente. E ainda queria a versão dela. O que fui pra ela? Poucas coisas descrevi porque muitas não sei como explicar. Nem poderia.

Resmungos: :: por Line :: 6:11 AM ::

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Relaxa.
É só isso. Poderia ser pior. Bebe um copo de cerveja. Ahhh! Noite. Tão bom seria se todo dia pudessemos ver assim, a vida como uma meditação sexual: só relaxa e goza.
Venha a mim 2008.

Mais um ano e só.

Resmungos: :: por Line :: 7:04 AM ::

Domingo, Janeiro 20, 2008

Não havia mais com o que se preocupar. Poucas coisas restaram e o que ficou já não a prende. Solta. E o que mais? Só. Mais do que poderia imaginar. Mais do que poderia desejar. Viajava numa onda de desapego que já previa. Mas não assim, tuda ela ao mesmo tempo, nesse dilúvio gigantesco.
Nessas horas sempre buscamos culpar alguém, alguma entidade divina ou os monstros que inventamos. Mas ela sabia o que estava vivendo. Uma parte da dor era incompreenssível e sem sentido. A outra era esperada - e muito mais doida.
Acabou. E não foi só uma. Foram capítulos inteiros e fundamentais para sua história. Personagens insubstituíveis que se recusaram - ao mesmo tempo - a fazer parte de seu caminho. A trilha estava a sua frente - e ela seguia. Sentia-se e era mais solitária do que nunca.

E com medo de si mesma caminhava
Nas sensações apenas os carros passavam
"Vrumm, Vruuummm"
Vinha-lhe o vento, a doce brisa de velocidade
não queria apenas sentí-la:
precisava sê-la.
Pensou nos campos.
Foram-se os alecrins -
Agora restavam-lhe
apenas os seus girassóis.
Deu um sorriso estranho e se foi.

Resmungos: :: por Line :: 5:08 AM ::

Domingo, Dezembro 23, 2007

Lua Adversa - Cecília Meirelles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu..

Resmungos: :: por Line :: 3:38 AM ::

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Chegue mais perto, quero te contar. Aquelas dúvidas que você guardava sem nunca se preocupar em esconder lembra? Posso respondê-las todas hoje. Aproveite. E não me olhe com essa cara de assombro. Ainda sou eu, mas dessa vez você pode acreditar, como eu acredito em você esta noite. Só por essa noite. Responderei tudo e mais um pouco. O que você quer saber?
Quero te ver de perto, quero te ter por perto. Sente-se aqui. Eu trouxe aquele doce que você gosta. E não ache que pretendo algo mais do que me revelar a você. Não entenda que por mal, mas era preciso me resguardar. Era preciso fugir de algumas verdades para proteger a nossa relação.
E agora, pela primeira vez me sinto assim, com esse peso nas costas, parecendo carregar uma culpa que não é minha. Sabe como? E não condene esse meu jeito só porque você nunca viu igual. Talvez algumas coisas sejam tão claras que nos impedem de falar – toda fala limita o sentimento àquilo que se diz. Portanto não me peça pra definir o que sinto.
Sempre fui amante da liberdade. Mas a minha liberdade perdeu-se totalmente quando descobri você. Você não entende não é? Limitei-me. E eu não suporto isso. Tenho sentido alguns espasmos da essência, algumas crises de consciência sobre o que quero e o que achava querer – ou sobre o que eu vivo agora e o ideal que tinha de viver. Perdi a liberdade quando percebi não querer nada além do que esteja em você. Tenho andado com tantos desejos que perdi a liberdade de simplesmente não querer. E o pior é que estou adorando essa minha nova situação.

2007

Envolto em ti permaneço
Na tua superfície lisa e intacta
Simplesmente nua.
Aspiro teus suspiros
Na ânsia de te ter em mim

Doce fruta do meu amor secreto,
Sangro na dor da saudade
E desta água preciso banhar-te
Em versos perdidos
Que minh’alma chora.

Sereia da minha vida,
Escondida sempre entre as conchas.
És meu talvez constante,
A parte indecifrável
Dos olhares mais bonitos.

E nos campos de alecrim
Quem me tem nas mãos é tu,
Pois mesmo longe ainda estou assim,
Absorto em teus perfumes
Na espera de teus toques.

Envolto em ti permaneço
Na tua superfície lisa e intacta
Simplesmente nua
Aspiro teus suspiros
Na ânsia de te ter pra mim.

Resmungos: :: por Line :: 6:34 AM ::

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Até então eu brincava com o mundo inteiro – mas não como agora. Na época eu podia mudar tudo, inventar, destruir e recortar o que não se ajustava. Era bem diferente. Eu podia ter tudo porque meu tudo era muito mais e custava muito menos – quase nada. E também podia ser nada porque o nada era muito menos que agora, não era complicado e não incomodava tanto.
Minhas histórias eram tão fofinhas, tão inocentes e tão mais agradáveis. Meus personagens eram mais divertidos e eu nunca tinha matado nenhum deles. Eles sempre eram controláveis e não tinham a irritante autocrítica que resolveram ter mais tarde. Um deles chegou a me desafiar esses dias. Mas nada que o ‘delete’ do meu teclado não pudesse resolver. Há!
O mais legal de tudo era que na época a maldade inata que emanava de mim era desmedida e inconseqüente. Podia ter continuado assim né? Eu não me importaria de continuar fazendo as mesmas crueldades e não sofrer com aquela culpa que mais parece uma ressaca. Ô coisinha totalmente desnecessária!
O que me separou dessa época? Eu sempre coloquei a culpa nos livros de geografia que tentam explicar o mundo com coisas coerentes e científicas demais. Sempre detestei Geografia – desde que a professora veio dizer que as estrelas na verdade “são esferas de gás, principalmente hidrogênio e hélio, que se encontram a uma temperatura muito alta.” Hunf! As crianças podiam muito bem viver sem saber disso. Mas nãããããão! Os professores de ciências têm sempre que ser tarados por acabar com toda a magia da minha vida.
Daí, haha. Esses dias tava conversando com meus botões e descobri que a culpa não foi [TODA] da Geografia. Foi culpa da minha primeira dor forte. Sabe, daquelas que te põem no chão e te dão vontade de sumir com o vento? De escorregar com a chuva e se perder nos bueiros da cidade? Então, foi a partir daí, durante a minha incrível adolescência, que as coisas – que já não tinham mais mágica nenhuma – começaram a mudar os rumos completamente.
Minhas histórias começaram a ficar cheias de gritos que me cortavam de cima a baixo. Mas nenhum foi tão difícil quanto o primeiro. E isso se assemelhou muito à minha vida. Aliás, acho que a de todo mundo. A primeira dor sempre transforma tudo na gente.
Ela veio assim do nada, eu nunca tinha vivido aquilo – nem sabia que podia. Achava mesmo que era tudo baboseira de gente velha querendo achar problema onde não tem, sabe? Que fica cutucando a ferida só pra ver sangrar mais e depois, ainda por cima, passa mertiolate fingindo querer que cicatrize rápido, mas no fundo só passa pra arder? (sim eu sou da época que mertiolate ardia). Descobri finalmente que não era isso. Que aquela dor existia mesmo. Mas deixo claro que a parte do mertiolate eu ainda acho que é masoquismo.
Então, é horrível porque eu nunca tinha visto aquilo! Não tava nos planos e nem tinha na bula da minha vida – aquela que a mãe sempre dá pros seus parentes em reuniões familiares. Procurei meu livro de regras vitais. Mas quem disse que a dor obedece alguma regra? E além de que, como que eu ia fazer regras que proibissem algo que eu nem sabia que existia? E eu só fui entender que a dor era possível quando vi meu coraçãozinho ali, estendido no chão, pedindo socorro. E foi assim que eu comecei a crescer.

Resmungos: :: por Line :: 4:20 AM ::